segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Correio messalínico (2):
«prazeres anais partilhados» e sex toys

De um leitor, a boîte à lettres de Méssaline recebeu a seguinte missiva:

«Messalina caríssima,

Vinha questionar a propriedade de Collige, vir, rosam, pensando eu que colligere implicaria necessariamente um plural, mas ravisei-me.
Mas, já que a plume estava trempée, aproveito para contribuir para a questio dos loci ejaculandi.
Pois este seu criado aprecia também a ejaculatio mamária, quiçá umbilical; é particularmente sensível à parte visual da coisa, si j’ose dire.
Além de que o roçar do rego na rata repousada enquanto a mão faz por retardar o jacto que virá a escorrer por imprevisíveis vales é um prazer acrescido, nada despiciendo.
Levam-me estas considerações a notar que a sua enciclopédica prosa ainda não abordou o tema dos prazeres anais partilhados.
Permito-me recorrer às modernices audiovisuais para ilustrar este ponto (gosto particularmente dos minutos finais):
http://xhamster.com/movies/2325133/strapon_super_hot_dominant_babe_pegging_her_man.html
Quid juris?»


Caro leitor,

Apesar das generosas e curvilíneas formas com que Deus ou o Diabo dotaram Méssaline, alguns diriam dela ser algo quadrada. (Que o digam: Méssaline s’en fout!) É que, na “contabilidade” das coisas do sexo, a autora destas linhas tem certas coisas por bem claras e não negociáveis.

Em primeiro lugar, o sexo é para Méssaline uma coisa exclusivamente um-a-um. (O «um» pode não ser sempre o mesmo, pode mesmo ser um de manhã e outro à tarde — mas nessa tarde o «outro» é o «um».) Assim, e saindo um pouco do âmbito da epístola recebida, Méssaline não tem a fantasia — sequer a curiosidade — da bacanal, do ménage à trois, ou de qualquer outra variante para lá de uma mulher (ela) e um homem.

Descendo a um nível mais anatómico (e regressando ao texto do leitor), a Méssaline também não cativam partes anatómicas extranumerárias: no cômputo dela e do homem com que a cada momento partilha o leito deverão existir (nem mais, nem menos) duas bocas, uma piça, uma cona, dois ânus (apenas um dos quais — o dela — será, Messalina volente, supinamente enrabado), e assim por diante, como facilmente se deduz.

Ergo, «prazeres anais partilhados» é para Méssaline algo próximo do oximoro, se por tal expressão se entende a reciprocidade na penetração. Nunca tendo passado por tal situação, a Méssaline ocorre-lhe que, fosse alguma vez posta perante tal proposta de «partilha», se seguiria quase imediatamente uma partida — a dela ou a dele, inversamente conforme a propriedade do leito.

Saindo desta questão e digressionando (à propos du vidéo) pelo tema dos sex toys, também neste capítulo Méssaline é aquilo que alguns (tant pis pour eux...) classificariam como «careta»: tem uma longa lista do que é inadmissível e uma substancialmente menor lista do que é aceitável e até desejável.

Méssaline rejeita objectos penetrantes em geral, com especial ênfase nos metálicos ou que de alguma forma pareçam mais próprios de campo de batalha primitivo do que das vizinhanças talâmicas. Rejeita também, liminarmente, qualquer objecto especialmente vocacionado para práticas de bondage. (Méssaline furta-se a inventariar a impressionante panóplia disponível no mercado, também pelo desconhecimento nascido do desinteresse.)

Reversamente, Méssaline adora que o seu amante lhe meta na cona um longo colar de pérolas, que, já molhado nos recônditos sucos dela, ele retirará lentamente com a boca. (Tal colar, de resto, é um manancial de possibilidades que a desejada mas não conseguida brevidade destas linhas não permite aprofundar.)

Em alternativa às metálicas algemas, Méssaline favorece as fitas de seda, muito mais flexíveis, em mais do que um sentido: uma longa e larga fita de requintada seda é meio de leve e sensual submissão (terreno onde se aventura, como se vê, com muitíssimo cuidado); é venda propiciadora de prazeres que apenas se adivinham; ao deslizar pelo corpo, desperta rabelaisianas volúpias...

E vergastadas, só mesmo da piça elle même ou de rosas (sem espinhos, e mesmo assim com juizinho): nos lábios da cona, à entrada do cu, no períneo que daquela a este vai... hmmm... délicieux! (Méssaline concede: por altura da efeméride aprilina, ou quando a sua preferência recai sobre um teso mancebo de índole revolucionária, a rosa poderá, com forni(deli)cioso ganho, ser destronada por purpúreo cravo.)

Uma ressalva final: ainda que, confessa, nunca a eles tenha recorrido, Méssaline contempla, condicionalmente, o uso de vibradores. As condições são, não só a já referida natureza não agressiva do instrumento (não ser metálico, etc.), mas também o seu uso apenas durante os preliminares, sem penetração: cona dentro, exclusivamente uma piça de humana carne! Dos vibradores quer unicamente isso: recriar o prazer da saudosa tremideira que, a partir dos seus onze aninhos, lubricamente lhe subia do assento do velho autocarro escolar até ao fundo do ser.

2 comentários :

  1. O bom gosto de Méssaline estava já provado, mas agora não oferece dúvidas.

    Tem toda a razão quanto ao número de parceiros. Neste contexto, é de louvar o entendimento do Estado Novo, que proibia "ajuntamentos de mais de duas pessoas". Não que eu aprove a proibição (viva a liberdade!...), mas a verdade é que mais de dois já é uma multidão.

    Tem razão, também, no apropriado uso do colar (ia escrever "conar"), muito mais útil e prazenteiro do que insipidamente dependurado ao pescoço.

    Tem razão, ainda, acerca das "vergastadas de piça", embora, aqui, eu me atreva a meter a minha... colherada. Dupla colherada, mesmo.
    A primeira, para assinalar que as vergastadas devem ser de verga (pois então!).
    A segunda, para pedir a sua sábia opinião sobe a grafia: piça ou pissa?
    Mestre Bocage escrevia "E os Amores, de amor por ela ardendo, / As pissas pelas mãos lhe vão metendo". Mas também "Ora chega-te a mim, leva esta piça"... E um discípulo fica confuso...

    Finalmente, a evocação da sua "saudosa tremideira" fez-me lembrar, imediatamente, a minha velha máquina de lavar roupa, quando a alta rotação. Não é que seja de um conforto extraordinário, mas quem não sabe adaptar-se às circunstâncias não goza desta vida a metade.

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    1. Cher Paulo F,
      Quanto à sua dúvida, o que M. tem a dizer-lhe é que lhe parece haver alguma hesitação na grafia da palavra, o que leva a dupla grafia, como são os casos de «bêbedo» e bêbado», «epístola» e «epístula», entre outros. M. segue o «Dicionário Houaiss» que apenas regista a entrada «piça» ( e, já agora, apenas a «epístola»).
      M. agradece que a tenha lembrado de que a vergastada deve ser de verga. Pois claro, etimologia oblige...
      Quanto à sua (dela) epístola, M. sublinha que nela verte apenas as suas pessoalíssimas opções (opições, na doce e insinuante fala dos brasileiros). Não pretende, portanto, ser normativa. Seguindo outro Paul, o Verlaine, de la liberté avant toute chose...
      Bisous

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